Vistas do alto, as largas avenidas e a simetria de Palmas, Capital do Tocantins, impressionam, mas escondem uma dura desigualdade quando o olhar se volta para o chão de terra das periferias. Por muito tempo, o planejamento urbano manteve o monopólio da fala técnica, relegando comunidades inteiras ao esquecimento.
No Jardim Aureny IV, contudo, essa lógica foi subvertida. Uma iniciativa pioneira que experimenta a quebra de paradigma do planejamento tradicional demonstrou que a periferia não quer apenas ser ouvida: ela quer ser ouvida, desenhar o próprio destino e transformar sonhos em realidade.
O Resgate Histórico
A história desse marco da cidadania começou em 2024, quando o projeto de extensão universitária Palmas Participa, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Tocantins (UFT), elaborou a Agenda Popular pelo Direito à Cidade por meio de oficinas de escuta ativa na capital. Este trabalho resultou na entrega do caderno de diagnóstico interligando as demandas locais com o base orçamentária municipal.
A Efetivação de uma Proposta Piloto
Em 2025, a universidade e os moradores do Jardim Aureny IV uniram forças para construir um Plano de Bairro piloto. Coordenada pelo professor João Bazzoli (UFT), a metodologia aliou conceitos de renomados urbanistas — como Cândido Malta Campos Filho e Ermínia Maricato — ao saber prático da comunidade. Para garantir rigor técnico, os pesquisadores utilizaram sobrevoos estratégicos de drones, cruzaram dados censitários do IBGE e aplicaram o inovador "mapeamento afetivo", no qual os próprios moradores marcaram em mapas locais as memórias felizes e pontos críticos de abandono.
Os Moradores como Protagonistas
Essa imersão revelou a profundidade das vivências locais. Johnson Moraes, morador do bairro desde janeiro de 1992, recordou o início desafiador da comunidade ao declarar: "Fui primeira turma de oitava série da escola Novo Horizonte. Os três primeiros meses foi a luz de lampião. Não tínhamos luz ainda no nosso bairro". Ao refletir sobre a importância da mobilização popular, ele resumiu: "Não existe cidade sem pessoas. São pessoas que fazem as cidades". Na mesma direção, a moradora Claudimira Pires Alves, que também acompanhou o nascimento do bairro em 1992, enfatizou o propósito coletivo ao pontuar: "Precisamos de melhorias".
Da Conversa a Ação Concreta
O engajamento culminou, em novembro de 2025, na entrega de um catálogo técnico de 150 páginas com diagnósticos e prioridades eleitas em plenária. Além disso, foram gerados projetos arquitetônicos concretos — como a quadra reversível da Escola Maria Verônica, desenhada por Vanessa Cassol, e a requalificação de praças, pela equipe da professora Fernanda Brito Abreu — e uma minuta de projeto de lei complementar, elaborada pela pesquisadora Maria Vitória Costa e Silva, para institucionalizar os planos de bairro em Palmas.
O alcance da experiência ultrapassou as fronteiras estaduais, conquistando o Selo ODS, destaque na COP 30 em Belém e no Circuito Urbano da ONU-Habitat. O ápice dessa conquista ocorreu em outubro de 2026, com a inauguração da revitalizada Praça Dona Aureny Siqueira Campos.
A Ciência Aplicada e os Resultados Práticos
A trajetória do Jardim Aureny IV comprova que a ciência se torna verdadeiramente transformadora quando se conecta às necessidades humanas.
Quer ver de perto como os drones, os mapas afetivos e os depoimentos emocionados dos moradores se transformaram nessa revolução urbana?
Assista ao vídeo completo disponibilizado a seguir e acompanhe os bastidores dessa história inspiradora!










